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Sofia Pires

Sofia Pires

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3.4.4.2. Vias de transmissão das IST

As principais vias de transmissão de IST são:

• as relações sexuais vaginais, não protegidas, entre mulher e homem; ou seja, quando o pénis é introduzido na vagina sem preservativo (interno ou externo);

• as relações sexuais anais, não protegidas, entre mulher e homem ou entre homem e homem. Ou seja, quando o pénis é introduzido no ânus sem a proteção de um preservativo;

• para algumas infeções, as relações sexuais orais; ou seja, quando a vagina, o clitóris ou o pénis estão em contacto direto com a boca do parceiro/a, sem uma barreira protetora (como uma folha de látex ou plástico impermeável, por exemplo);

• o risco de transmissão está também relacionado com determinadas práticas ou comportamentos, como por exemplo a partilha de brinquedos sexuais; para evitar a transmissão, devem usar-se dams (pequenos lenços de latex) durante o sexo oral/vaginal, luvas de latex e lubrificantes à base de água durante o toque ou a penetração no ânus ou vagina, utilizar preservativos e lubrificantes nas situações de partilha de vibradores, etc.

É fundamental encontrar profissionais de saúde com os quais se sinta confortável para conversar e que possam assegurar o acompanhamento.

Sempre que se inicia uma nova relação sexual é importante falar com a parceira sobre as relações anteriores, de modo a prevenir os riscos de contrair uma IST.

De acrescentar que, quando não estão em contacto com o corpo, a maior parte dos agentes infeciosos responsáveis pelas IST morre rapidamente.

 

3.4.4.1. O que são as IST?

As IST, ou infeções sexualmente transmissíveis, são infeções contagiosas cuja forma mais frequente de transmissão é através das relações sexuais (sobretudo vaginais, orais ou anais).

IST é abreviatura para Infeções Sexualmente Transmissíveis e são estas infeções que podem desencadear as doenças, ou seja as DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis). Apesar desta precisão, ambas as palavras são muitas vezes entendidas como sinónimas. O mais importante é saber que a sua principal via de transmissão (mas não a única) são as relações sexuais, sejam elas relações sexuais vaginais, sexo oral ou sexo anal.

Infeção é a invasão de tecidos corporais de um organismo hospedeiro por parte de agentes capazes de provocar doenças, a multiplicação desses agentes e a reação dos tecidos do hospedeiro aos mesmos e às toxinas por eles produzidas.

Doença infeciosa corresponde a qualquer doença clinicamente evidente (ou seja, manifestado-se através de sintomas e sinais, com alterações fisiológicas, bioquímicas e histopatológicas), como consequência das lesões causadas pelo agente e pela resposta do hospedeiro.

Quando o agente infecioso penetra, se multiplica ou se desenvolve no hospedeiro, sem provocar dano nem manifestações clínicas, considera-se a infecção subclínica, inaparente ou assintomática.

A prática de sexo mais seguro é a melhor maneira de prevenir a infeção.

As IST mais conhecidas são:

 

• VIH/SIDA

O VIH encontra-se principalmente no sangue, no sémen e nos fluídos vaginais das pessoas infetadas.

Assim, a transmissão do vírus só pode ocorrer se estes fluídos corporais entrarem diretamente em contacto com o corpo de outra pessoa, pela via sexual e/ou sanguínea.

Uma mulher seropositiva pode também transmitir o vírus ao seu bebé durante a gravidez, o parto ou o aleitamento.

É importante salientar o facto de não constituírem riscos de transmissão comportamentos sociais, como abraçar, beijar, apertar a mão ou beber pelo mesmo copo que uma pessoa infetada pelo VIH. 

A infeção pode ser prevenida:

• utilizando o preservativo masculino ou feminino nas relações sexuais;

• não partilhando objetos que possam estar em contacto com fluidos contaminados: escovas de dentes, máquinas/lâminas de barbear/depilar, objetos cortantes, objetos perfurantes e agulhas (incluindo de tatuagem e de piercing), seringas e outros dispositivos médicos que estejam em contacto com sangue, objetos para inalar drogas (como notas ou palhinhas);

• o risco de contágio de uma mãe seropositiva para o seu bebé pode também ser diminuído significativamente ao realizar uma terapêutica adequada durante a gravidez e o parto e evitando o aleitamento.

Todas as pessoas devem fazer o teste do VIH. Mas este torna-se ainda mais necessário se se verificarem comportamentos de risco, como:

• relações sexuais desprotegidas (sem preservativo);

• partilha de seringas ou outro material de injecção de drogas;

• contacto com sangue de outra pessoa.

 

.Como funciona o teste de diagnóstico

O diagnóstico faz-se a partir de análises sanguíneas específicas para o VIH. Esta análise detecta os anticorpos que o sistema imunitário produz contra o vírus, ou mesmo o próprio vírus.

Caso tenha havido comportamento de risco, a colheita de sangue deve ser efectuada apenas 3 a 10 semanas após o contacto, não podendo existir uma certeza sobre os resultados nos primeiros 3 meses após o contágio (as primeiras análises a uma pessoa infectada pelo vírus podem dar um resultado negativo, se o contágio foi recente). Por este motivo, e na dúvida, o teste deve ser repetido passados 3 meses.

 

.Onde posso fazer o teste

Pode pedir ao seu médico de família ou médico assistente que prescreva o exame. Outra opção passa por fazer o teste (anónimo, confidencial e gratuito) num CAD - Centro de Aconselhamento e Detecção Precoce do VIH/SIDA. 

Nalguns locais (unidades móveis de saúde, instalações de ONGs, alguns serviços de saúde) poderá fazer os chamados testes rápidos. Para evitar resultados falsos-negativos estes testes são extremamente sensíveis; por esse motivo, caso sejam reactivos, deverá sempre seguir-se um teste por colheita e análise de sangue nos locais acima referidos.

 

.Terapêutica anti retrovírica

Não há ainda uma cura para a infeção pelo VIH e SIDA. Os tratamentos passam pela administração de uma terapêutica anti retrovírica bastante eficaz.

Em Portugal, esta terapêutica é gratuita e de distribuição hospitalar, basta que as pessoas seropositivas sejam referenciadas junto dos serviços, sendo marcada uma primeira consulta médica.

O tratamento com medicamentos anti retrovíricos deve ser acompanhado desde o início, de modo a aumentar a adesão dos doentes.

As recomendações terapêuticas têm sido alteradas com o avolumar de conhecimento sobre a infeção ao longo dos anos; além disso, a terapêutica é adaptada caso a caso. Não deve, por isso, estranhar, se o tratamento indicado for diferente daquele que uma pessoa sua conhecida recebeu.

Para além do acesso a terapêuticas medicamentosas, muitas pessoas infectadas podem necessitar também de apoio psicológico e/ou social.

 

.Apoio psicológico e social

O diagnóstico de infeção por VIH pode provocar um conjunto de emoções com as quais pode ser difícil lidar: ansiedade, negação, depressão, medo. O apoio psicológico e aconselhamento é, assim, fundamental para garantir o bem-estar dos seropositivos.

Para além dos serviços hospitalares, também algumas Organizações Não Governamentais (ONG) ou Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), disponibilizam consultas de aconselhamento a pessoas infetadas.

A Segurança Social prevê mecanismos e serviços de apoio social nas seguintes áreas:

• Atendimento/acompanhamento social - Destina-se a informar, orientar, encaminhar e apoiar indivíduos e famílias.

• Apoio domiciliário - Assegura a prestação de cuidados individualizados e personalizados no domicílio a pessoas ou famílias que não possam assegurar, temporária ou permanentemente, a satisfação das suas necessidades básicas e/ou as actividades da vida diária.

• Residência - Equipamento destinado a pessoas infetadas pelo VIH/SIDA em ruptura familiar e desfavorecimento socioeconómico. Pretende-se que o ambiente destas residências, que deverão alojar entre cinco e dez pessoas, se aproxime o mais possível do de uma unidade familiar.  

Fonte: Coordenação Nacional para a Infeção VIH/SIDA

 

Dados e factos:

Desde 1981, mais de 25 milhões de pessoas morreram de SIDA em todo o mundo. Só no continente africano, mais de 11 milhões de crianças ficaram órfãs devido à epidemia.

Em Portugal, são cerca de 14 mil o número de pessoas doentes de SIDA, num total de 32.491 mil casos de infeção que se registaram desde 1983.  

Os últimos dados mundiais foram publicados pela UNAIDS, agência das Nações Unidas para o VIH/SIDA, em Agosto de 2008 e reportam-se ao ano de 2007. O quadro que apresentamos sintetiza as estimativas mais representativas desta epidemia. Consultar o relatório da UNAIDS (inglês).

 

Estimativas globais:

Número de pessoas que vivem com VIH/SIDA - 33.0 milhões

Número de adultos que vivem com VIH/SIDA - 30.8 milhões

Número de mulheres que vivem com VIH/SIDA - 15.5 milhões

Número de crianças que vivem com VIH/SIDA - 2.0 milhões

Número de novos casos registados - 2.7 milhões

Número de novos casos em crianças - 0.37 milhões

Número de mortes por SIDA - 2.0 milhões

Número de crianças que morreram de SIDA - 0.27 milhões

Fonte: UNAIDS, 2007

 

Dados nacionais:

Apresenta-se aqui um extracto dos dados publicados no relatório "Infecção VIH/SIDA: situação em Portugal de 2013", do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge:

"Cumpriram-se trinta anos do diagnóstico dos primeiros casos de infeção por VIH em Portugal e encontravam-se notificados, cumulativamente, 47.390 casos de infeção VIH, dos quais 19.075 em estadio de SIDA;

Dos casos notificados em 2013, 1093 referiam diagnóstico nesse ano. Destes, 44,4% residiam na região da Grande Lisboa, a maioria registou-se em homens (70,7%), a idade mediana ao diagnóstico foi de 40,0 anos, 71,3% referiam ter nascido em Portugal e 20,7% estavam em estadio de SIDA. A via sexual foi o modo de infeção indicado na maioria dos casos, com 61,1% a referirem transmissão heterossexual. 42,7% dos casos do sexo masculino referem transmissão decorrente de relações sexuais entre homens cuja mediana de idades era de 33 anos. Em 7,0% dos novos casos a infeção está relacionada com consumo de drogas. Uma elevada percentagem dos casos (58,1%) cumpria o critério imunológico de apresentação tardia aos cuidados de saúde, TCD4+ <350 cél/mm3 na primeira avaliação clínica. Nos novos casos de SIDA a pneumonia porPneumocystis foi a patologia mais frequentemente referida. Foram ainda notificados 226 óbitos ocorridos durante o ano de 2013;

Ao longo das três décadas da epidemia VIH/SIDA registou-se uma evolução das suas características. O aumento do número de novos diagnósticos de infeção por VIH em jovens do sexo masculino que têm sexo com homens e a elevada percentagem de diagnósticos tardios, particularmente em heterossexuais de meia-idade, são tendências recentes em Portugal, documentadas no presente relatório, e que urge compreender e reverter. A infeção por VIH continua assim a representar um desafio importante para a Saúde Pública em Portugal."

 

• Vírus do Papiloma Humano-HPV

Existem mais de 100 tipos de HPV. Em determinados casos afetam a pele e causam verrugas, cerca de 40 tipos afectam o aparelho genital, causando condilomas (também chamados verrugas genitais)..

Estima-se que 80% das mulheres e dos homens têm contacto com o vírus em alguma fase da sua vida. Na maioria das situações não resultam em problemas mais graves. Contudo, se o sistema imunitário está mais vulnerável pode tornar-se uma infecção persistente e causar cancro do colo do útero. A forma mais fácil de diagnosticar é através do exame citológico (Papanicolau).

São fatores de risco:

• relações sexuais muito precoces

• elevado número de parceiros

• tabagismo

Já existem disponíveis em Portugal vacinas que previnem a infeção por alguns tipos de HPV.

Para mais informações, consulte o site www.hpv.com 

 

• Clamídia

A Clamídia é uma infeção do tipo bacteriano que pode afetar o pénis, a vagina, o colo do útero, o ânus, a uretra, a garganta ou os olhos. É a IST mais comum. A infeção transmite-se por via sexual e também de mãe para filho. 

Na maioria dos casos não apresenta sintomas, no entanto, quando existem, podem ser:

Na mulher:

• dor pélvica

• corrimento vaginal

• dor durante a relação sexual ou ao urinar

• hemorragia entre as menstruações (spotting)

• poderá existir corrimento purulento (amarelo e espesso).

No homem:

• ardor ou dor ao urinar

• pus ou corrimento proveniente do pénis

• inchaço nos testículos ou no ânus.

O seu tratamento é feito à base de antibióticos. Quando não tratada, a clamídia pode causar doença inflamatória pélvica (DIP) nas mulheres (10% dos casos) e/ou infertilidade (em todas as pessoas). Estima-se que uma em cada quatro mulheres com DIP fique infértil.

Nos homens, pode causar inflamação do epidídimo e/ou da próstata. Também pode provocar artrite reativa (uma combinação de artrite, conjuntivite, e inflamação da uretra).

Nas mulheres, as complicações mais frequentes são gravidez ectópica, inflamação do cérvix, dor pélvica aguda ou crónica, e DIP.

Os recém-nascidos de mães infetadas são mais suscetíveis a infeções oculares (conjuntivite) e pulmonares.

 

• Gonorreia ou blenorragia

A gonorreia, também popularmente chamada de "esquentamento", é uma infeção causada por uma bactéria que pode afetar o pénis, a vagina, o colo do útero, a uretra, o ânus ou a garganta. A sua via de transmissão principal é a sexual, através do contacto com uma pessoa infetada, mas pode ser também transmitida de mãe para filho durante o parto.

À semelhança da maioria das IST, a gonorreia não apresenta sintomas, pelo que a ida ao médico para exames periódicos é fundamental para a sua deteção precoce. Quando existem, os sintomas são:

Na mulher:

• dor pélvica

• hemorragia 

• febre

• penetração dolorosa

• ardor ao urinar

• inflamação da vulva

• vómitos e mal-estar geral

• corrimento vaginal purulento

• urinar mais vezes e de forma mais frequente do que o habitual

Nos homens:

• corrimento do pénis semelhante a pus através da uretra

• dor ou ardor ao urinar

• dor nos testículos

O tratamento da gonorreia é feito com a prescrição de antibióticos. Quando não tratada, a gonorreia pode causar doença inflamatória pélvica (DIP) nas mulheres (40% dos casos) e/ou infertilidade (em todas as pessoas). Estima-se que uma em cada quatro mulheres com DIP fique infértil.

Pode ainda provocar, quando não tratada, pústulas na pele, petéquia (pequenos derrames), artrite, meningite, endocardite (inflamação da camada interior do coração), corioamnionite (inflamação das membranas que envolvem o feto durante a gravidez).

Os homens que tenham tido gonorreia têm associado um maior risco de vir a desenvolver cancro da próstata.

Pode ser transmitida pela mãe ao recém-nascido.

Todas as pessoas com um resultado positivo para gonorreia devem ser testadas para outras IST.

 

• Hepatite B

A Hepatite B é uma infeção viral que ataca o fígado e pode causar doença aguda ou crónica. O Vírus da Hepatite B (VHB) é extremamente contagioso, sendo as suas principais vias de transmissão: os fluidos genitais (esperma e secreções vaginais), fluidos corporais (sangue, urina e saliva), e o leite materno.

É a mais perigosa de todas as hepatites, pois o risco de morte por cirrose ou/e cancro do fígado é muito elevado. No entanto, a infeção pode, em determinados casos, ser eliminada pelo organismo. Mais de 90% dos adultos saudáveis que são infetados com Hepatite B recuperam e libertam-se do vírus no período de 6 meses.

São considerados comportamentos de risco:

• Relações sexuais vaginais sem preservativo masculino ou feminino

• Sexo oral /anal não protegido

• Partilha de seringas

• Partilha de objetos pessoais como escovas de dentes ou lâminas de barbear

• Manuseamento de agulhas infetadas em contexto hospitalar

O vírus pode sobreviver fora do organismo pelo menos 7 dias. Durante este período, o vírus pode provocar infeção se entrar na corrente sanguínea de uma pessoa que não esteja protegida pela vacina.

O período de incubação do vírus é em média de 75 dias, mas pode variar de 30 a 180 dias. O vírus pode ser detetado 30 a 60 dias após a infeção e persiste por períodos de tempo variável.

Em 90% dos casos a Hepatite B é assintomática, ou seja, a pessoa não apresenta sintomas.

Também na fase aguda da infeção, a maior parte das pessoas não apresenta sintomas. No entanto, algumas têm doença aguda com sintomas que duram várias semanas, incluindo: febre, fadiga extrema, náuseas, vómitos, dor abdominal, dores nas articulações, erupções na pele e posteriormente icterícia (pele e olhos amarelados), urina escura e fezes claras.

Em algumas pessoas, a Hepatite B pode causar doença crónica no fígado, que pode desenvolver mais tarde cirrose ou cancro no fígado.

Não há medicação para combater diretamente o agente da doença. Tratam-se os sintomas e as complicações.

No entanto, se a pessoa foi exposta recentemente ao vírus da Hepatite B, deve recorrer de imediato a uma consulta médica, pois uma intervenção precoce poderá ser fundamental para evitar o contágio.

A vacina para a Hepatite B é o meio mais seguro e eficaz de prevenção. É composta por três doses e tem uma taxa de eficácia de 95%.

Em Portugal, esta vacina passou a integrar o Programa Nacional de Vacinação para todos os adolescentes, desde 1995 e, a partir de 2000, passou a ser administrada a todos os recém nascidos.

Esta vacina é também administrada gratuitamente a todos os grupos de risco.

 

• Sífilis

A sífilis é uma infeção sexualmente transmissível causada por uma bactéria chamada Treponema Pallidum. Esta IST é frequentemente assintomática, o que dificulta o seu diagnóstico e tratamento adequado. Após a infeção, existe um período latente que dura em média 3 semanas e durante este período não são visíveis quaisquer sintomas, podendo manter-se assintomática durante um tempo considerável.

A Sífilis Primária caracteriza-se por uma úlcera indolor no ponto de exposição da bactéria e pode aparecer nos genitais, na uretra, no ânus e no colo do útero, bem como nos lábios e na boca.

Transmite-se através de relações sexuais não protegidas (sexo vaginal, oral ou anal), contacto com ferimentos causados pela doença e durante a gestação (em 40% dos casos causa aborto espontâneo, morte à nascença ou neonatal; noutros casos, causa sífilis congénita).

Os sintomas da sífilis não são sempre evidentes e variam consoante o estádio da doença:

• Fase 1 - Cerca de 3 semanas após a infeção, aparece uma pequena ferida/úlcera nos órgãos genitais, na boca, na mama ou no ânus.

• Fase 2 - 3 a 6 semanas depois do aparecimento da lesão, os sintomas podem incluir febre, dores de cabeça, perda de peso, dores musculares e fadiga.

• Fase 3 - Nos casos em que não foi tratada, a sífilis pode evoluir para situações clínicas graves, dando origem a severos danos ao nível do sistema nervoso e sistema cardiovascular e pode levar à morte. Esta fase pode ocorrer 1 a 20 anos após a infeção.

A sífilis é fácil de curar durante as fases iniciais, sendo normalmente tratada com penicilina; quando as pessoas infetadas são alérgicas a esse medicamento, podem tomar outros antibióticos.

O preservativo é o modo mais eficaz de evitar a transmissão da sífilis.

 

• Herpes genital

O herpes é uma infecção que pode ser causada por dois tipos de vírus: o vírus herpes simplex do tipo 1 (que causa lesões na mucosa oral) e o vírus herpes simplex do tipo 2 (que causa lesões nos genitais e anus).

Os 2 vírus causam as mesmas lesões, optando no entanto por mucosas diferentes, facto pelo qual uma lesão do tipo 1 não se instala na zona genital e igualmente o vírus de tipo 2 não se instala na mucosa oral.

No caso do herpes genital (tipo 2) a transmissão ocorre através do contacto com lesões ou secreções das zonas genitais afectadas, e tem um período de incubação de 3 a 7 dias.

Os sintomas caracterizam-se pelo aparecimento de vesículas e lesões na área genital, quer dos homens quer das mulheres, acompanhadas por dor, prurido e ardor ao urinar.

O herpes deve ser tratado para atenuar as queixas e sintomas e para diminuir o período em que o vírus se encontra ativo e contagiante; mas não existe cura, sendo recorrente o seu aparecimento. Quando surge, aconselha-se a abstinência sexual.

A utilização do preservativo é a forma mais adequada de prevenção, embora não seja 100% eficaz.

 

• Tricomoníase

Esta é uma das infeções sexualmente transmissíveis mais comuns. É causada por um parasita denominado Trichomas Vaginalis e transmite-se pelo contacto sexual. A pessoa pode estar infetada e não apresentar sintomas.

Os sintomas que frequentemente estão associados à infeção por tricomonas são:

Na mulher:

• Corrimento com odor intenso e cor alterada.

• Pequenas hemorragias durante ou após a relação sexual

• Prurido ou comichão à volta da vagina

• Inchaço das virilhas

• Necessidade de urinar com frequência e ardor ao urinar.

No homem:

• Corrimento proveniente da uretra

• Necessidade de urinar mais do que o habitual, associada a dor ou ardor

• Irritação no pénis

Esta infeção tem cura. Os sintomas surgem cerca de 5 a 28 dias após a pessoa ter sido infetada, sendo habitualmente prescritos antibióticos no tratamento da Tricomoníase. Os parceiros sexuais devem ser tratados ao mesmo tempo e só devem voltar a ter relações após o tratamento e quando já não houver manifestação de sintomas.

Na mulher grávida, esta infeção pode provocar parto precoce ou baixo peso à nascença.

A utilização do preservativo, masculino ou feminino, é o único método contracetivo que diminui o risco de contágio. 

 

Perguntas frequentes:

 

Como se pode evitar uma IST?

A utilização de métodos de barreira (como os preservativos interno ou externo, as luvas, ou as folhas de látex) é o método mais eficaz na prevenção de uma IST, sempre que existem relações sexuais, inclusivamente para proteger brinquedos sexuais.

Algumas parasitoses, como a sarna ou os piolhos púbicos, podem ser transmitidas no contacto da pele com lençóis ou estofos contaminados. Uma correcta e frequente higienização do corpo e dos espaços é o melhor método para reduzir o risco de contrair estas infecções.

Algumas IST, como a Hepatite B ou alguns tipo de HPV, podem ser transmitidas no contacto pele-com-pele, mas existem vacinas para estas infeções que devem ser igualmente consideradas. Para algumas populações específicas, definidas na Circular Normativa nº 15/DT da DGS, de 15/10/2001, a vacinação é gratuita. 

Podem ainda ser consideradas de menor risco, as práticas sexuais sem contacto com mucosas, ou o uso de brinquedos sexuais não partilhados.

Para o VIH, caso ocorra uma relação desprotegida, poderá ser disponibilizada nas urgências hospitalares e, em alguns casos, a PPE (profilaxia pós-exposição), para tentar dificultar a multiplicação do vírus. De salientar que a eficácia desta é maior se for disponibilizada num curto espaço de tempo: o medicamento deve ser tomado o mais cedo possível e no prazo máximo de 72 horas após a exposição ao VIH. Deixando passar este período de tempo, o tratamento deixa de ser eficaz. A eficácia do tratamento consiste na toma de medicação antiretrovírica durante 28 dias e a sua eficácia não é garantida.

Estão em curso estudos para usar preventivamente alguns medicamentos, mas esses métodos ainda não estão disponíveis.

 

As IST são fáceis de tratar?

Depende. Há infeções bacterianas que podem ser tratadas com antibióticos. Mas outras infeções, como o VIH, permanecem no organismo e implicam um tratamento durante toda a vida.

 

Onde posso fazer um teste de VIH/SIDA?

É possível fazer um teste de VIH/SIDA recorrendo aos Centros de Aconselhamento e Deteção do VIH (CAD), solicitar análises específicas ao médico de família ou a um médico particular, por hipótese. Os Centros de rastreio (gratuitos e confidencial) – CAD, existem em várias cidades do país: Aveiro, Almada, Barreiro, Beja, Braga, Bragança, Castelo Branco, Coimbra, Évora, Faro, Guarda, Leiria, Lisboa, Porto, Santarém, Setúbal, Viana do Castelo, Viseu e na Ilha Terceira (Açores).

 

É possível ficar infetado com sexo oral?

Sim. Existe sobretudo o risco de contrair infeções como a Gonorreia, a Clamídia, a Sífilis, o HPV ou o VIH, quer recebendo, quer fazendo sexo oral com uma pessoa infetada.

 

O que é o herpes genital?

O herpes genital é uma IST provocada por um vírus (normalmente o vírus simplex do tipo 2), através do contacto sexual. É das infeções mais frequentes. Como é difícil de detetar, muitas vezes o vírus passa para o/a parceiro/a sem que se saiba da sua existência.

O herpes pode ser tratado para atenuar as queixas e sintomas. Mas não existe cura, sendo o seu aparecimento recorrente (recidivas).

 

O cancro do colo do útero é uma DST?

O cancro do colo do útero é uma doença que resulta de infeções persistentes pelo Vírus do Papiloma Humano, o HPV. Este vírus vive na pele ou nas membranas mucosas, habitualmente, não causa sintomas, e propaga-se sobretudo pelo contacto sexual, pelo que é fundamental a prática de sexo mais seguro.

Existem muitos tipos diferentes deste vírus, com consequências diferentes (e zonas preferenciais de infecção). Algumas pessoas desenvolvem verrugas anogenitais visíveis (os chamados condilomas, causados por tipos de HPV que não provocam cancro) ou têm alterações pré-cancerígenas no colo do útero, vulva, ânus, pénis ou boca. Muito raramente, a infeção por HPV resulta em cancros anais, genitais ou da cabeça e pescoço.

Em Portugal, a vacina contra as infeções por HPV está incluída no Plano Nacional de Vacinação, sendo ministrada gratuitamente a todas a raparigas a partir dos 10 anos de idade. Está disponível também para outras pessoas (geralmente de forma não gratuita) mediante avaliação, caso a caso. Estudos recentes sugerem que a vacina pode ser benéfica mesmo para quem já vive com a infecção.

 

3.4.3. A infertilidade ou esterilidade

Segundo a Associação Portuguesa de Fertilidade, a infertilidade pode ser definida como “o resultado de uma falência orgânica devida à disfunção dos órgãos reprodutores, dos gâmetas ou do concepto. Um casal é infértil quando não alcança a gravidez desejada ao fim de 1 ano de relacionamento sexual contínuo sem métodos contracetivos (...), em que a mulher tem <35 anos de idade (6 meses se ≥35 anos de idade), e em que ambos não conhecem qualquer tipo de causa de infertilidade que os atinja. Também se considera infértil o casal que apresenta abortamentos de repetição (≥3, consecutivos).”

A prevalência da infertilidade conjugal é de 15-20% na população em idade reprodutiva.

Em aproximadamente 20-30% das situações, a causa de infertilidade é um problema do homem - há poucos espermatozoides ou eles não têm as características adequadas. Noutros 30-40% dos casos, o problema é da mulher (o mais frequente é haver perturbações da ovulação, mas a obstrução das trompas é também uma situação relativamente comum). Em cerce de 30% dos casais inférteis ambos os cônjuges contribuem, em maior ou menor grau para o problema. Em 5% a 10% dos casais não se detecta qualquer razão aparente para a infertilidade, que então se designa por infertilidade inexplicada ou de causa desconhecida. (Sociedade Portuguesa de Procriação Medicamente Assistida).

Fatores de risco e causas:

Ninguém se deve sentir responsabilizado por uma situação de infertilidade.

Há, porém, fatores de risco, tais como:

• Doenças infeciosas, como as Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST) ou outras doenças que afetam o aparelho reprodutor;

• Idade; 

• Problemas do foro genético, endocrinológico ou do sistema imunitário.

 

.Causas masculinas

As situações mais comuns são:

• Diminuição do número de espermatozoides

Em condições normais, um homem produz mais de 100 milhões de espermatozoides em cada ejaculação. Embora seja necessário apenas um espermatozoide para fertilizar o óvulo, a “viagem” até atingir o óvulo é tão extraordinariamente difícil, que a esmagadora maioria dos espermatozoides se perde ou morre no trajeto. Por isso, se um homem produz menos de 20 milhões de espermatozoides no ejaculado, a sua fertilidade está significativamente reduzida e a probabilidade de ocorrer uma gravidez é bastante menor. As razões porque tantos homens têm um número diminuído de espermatozoides não são conhecidas, mas poderão estar implicados factores genéticos, hormonais e ambientais.

Chama-se oligospermia (ou oligozoospermia) à diminuição acentuada dos espermatozoides.

• Espermatozoides com mobilidade reduzida

É uma situação também muito comum. A baixa mobilidade está muitas vezes associada à diminuição da concentração de espermatozoides. No esperma normal, pelo menos 50% dos espermatozoides devem mover-se de forma adequada. Abaixo desse limite, diz-se que o homem tem astenospermia ou astenozoospermia. As alternativas terapêuticas são as descritas atrás.

• Espermatozoides com configuração anormal

Considera-se normal o esperma que contém mais de 15% de espermatozoides morfologicamente normais. Se essa percentagem é menor que 15%, diz-se existir teratospermia ou teratozoospermia. Em situações de teratospermia grave, só a microinjeção intracitoplasmática (ICSI) oferece possibilidades de êxito significativas.

• Ausência de espermatozoides

Em alguns homens, o ejaculado não contém espermatozoides. Esta situação designa-se por azoospermia e significa que os testículos não produzem espermatozoides ou, então, que estão obstruídos os canais que conduzem os espermatozoides para o exterior dos testículos.

Em situações raras, é possível restaurar a permeabilidade desses canais, recorrendo a técnicas cirúrgicas com utilização de microscópios especiais. Se essa alternativa não for adequada, é possível tentar recolher os espermatozoides diretamente do testículo e utilizá-los para efectuar microinjeção - ICSI.

Se não há produção de espermatozoides pelos testículos (situação que se consegue identificar através da biópsia do testículo) e não se trata de uma das raras situações de causa hormonal, não existem formas de corrigir a situação. Como opção possível nesses casos, há que ter em conta, quando tal é exequível, a inseminação com esperma de dador.

 

.Causas femininas

As situações mais comuns são:

• Falência da ovulação

Pelo menos 20-25% dos casos de infertilidade feminina são causados por falência da ovulação tendo, como sintoma, menstruações irregulares ou mesmo ausentes.

A ausência de ovulação pode estar associada a peso excessivo ou emagrecimento excessivo.

Há numerosas causas para a falência da ovulação, incluindo secreção reduzida de hormonas pela hipófise (uma glândula na base do cérebro), existência de ovários poliquísticos ou falência de ovários.

Geralmente o tratamento com medicamentos é muito eficaz, havendo 60-70% de casais a conseguir a desejada gravidez. Há casos especiais em que poderá ser adequada uma actuação cirúrgica sobre os ovários, ou recorrer a Fertilização in vitro (FIV).

• Obstrução das trompas

É uma causa responsável por cerca de 30% dos casos de infertilidade feminina. Raramente há sintomas que indiquem a obstrução tubária, embora por vezes exista no passado uma história sugestiva de infeções dos órgãos pélvicos.

Por vezes as trompas não estão completamente obstruídas, mas estão fixadas ou aderentes, em posições que impedem a sua função de captação do óvulo libertado pelo ovário. A obstrução das trompas, parcial ou completa é habitualmente causada por infeções que podem ser associadas a bactérias muito diversas.

Em algumas situações pode ser indicado tratamento cirúrgico e, noutras, poderá haver indicação para Fertilização in vitro (FIV).

• Doenças do útero

Em cerca de 5% das mulheres, a infertilidade está associada a doenças do útero. Fibromiomas uterinos, anomalias congénitas na configuração do útero e alterações na sua cavidade interna, podem ser consideradas causa de infertilidade.

Pode não haver queixas associadas a estas doenças ou, pelo contrário, haver menstruações abundantes e dolorosas. Se há lesões importantes da cavidade uterina, as menstruações podem ser reduzidas ou inexistentes.

A terapêutica é cirúrgica, utilizando-se a técnica mais adequada para cada situação.

• Muco cervical desfavorável

Por vezes, o muco produzido pelo útero nos dias que antecedem a ovulação é muito espesso e não do tipo "clara de ovo", como é normal. Os espermatozóides não conseguem então entrar no útero. Em casos raros, o muco contém anticorpos que imobilizam os espermatozóides.

O tratamento é, habitualmente, inseminação intra-uterina (IIU) ou, em casos mais graves, Fertilização in vitro (FIV).

• Endometriose

Por vezes, o tecido que cobre o interior do útero desenvolve-se também externamente e implanta-se na cavidade abdominal, sobretudo na pelve e nos ovários.

Esta circunstância pode associar-se a menstruações especialmente dolorosas e, se o processo cicatricial é muito extenso, pode ser causa de infertilidade.

O tratamento é habitualmente cirúrgico, embora ocasionalmente se possa recorrer a certos medicamentos na redução das queixas.

Nestes casos, a Fertilização in vitro (FIV) poderá ser uma alternativa eficaz para conseguir a gravidez.

• Abortos de repetição

Algumas mulheres não têm propriamente dificuldades em engravidar, mas abortam sistematicamente. Esta situação, infelizmente não muito rara, poderá ser devida a alterações hormonais ou a malformações congénitas do útero. 

Há também um grande número de casos de defeitos nos embriões; nesta situação, não há ainda tratamento, embora haja algumas técnicas promissoras em investigação.

 

.Principais exames de diagnóstico

Na mulher:

• Análises hormonais para verificar se existe ovulação;

• Ecografia para observar o estado dos ovários e útero, bem como o desenvolvimento folicular (para verificar se existe a possibilidade de desenvolvimento de um óvulo no interior de cada um dos folículos ováricos);

• Histerossalpingografia: trata-se de uma análise de raio-X que permite verificar o estado das trompas de Falópio;

• Histeroscopia de diagnóstico: uma sonda com uma pequena câmara de vídeo é utilizada para observar o útero e verificar a eventual existência de problemas, como por exemplo pólipos.

No homem:

• Espermograma para avaliação de vários parâmetros de qualidade do esperma: número e concentração dos espermatozoides, características físicas do esperma, mobilidade dos espermatozoides, morfologia, etc.

• Teste à presença no esperma de anticorpos que possam impedir o espermatozoide de conseguir fertilizar o ovócito;

• Teste de migração de espermatozoides, para verificar se estes conseguem nadar através do muco cervical, permanecerem ativos e com capacidade de fecundação;

• Teste de fragmentação do DNA dos espermatozoides, que avalia a integridade do material genético constante na cabeça dos espermatozóides.

 

.Quem consultar em caso de infertilidade

O casal com problemas de infertilidade deve consultar um especialista de Reprodução Medicamente Assistida (RMA), quer nas consultas de infertilidade dos hospitais públicos, quer nas clínicas privadas dessa especialidade.

 

.Procriação medicamente assistida (PMA)

De acordo com o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, Procriação (ou Reprodução) Medicamente Assistida – PMA designa o conjunto das técnicas de tratamento de situações de infertilidade conjugal com apoio laboratorial.

Quadro legal:

De acordo com a legislação portuguesa, as técnicas de PMA são um método subsidiário e não alternativo de procriação. Neste contexto legal, só quando há um diagnóstico de infertilidade, ou no caso de necessidade de tratamento de doença grave ou de risco de transmissão de doenças de origem genética, infeciosa ou outras, é que se podem aplicar as técnicas de PMA.

Em Portugal, e de acordo com a legislação ( Lei n.º 32/2006), só serão beneficiárias de PMA as pessoas:

• casadas (que não se encontrem separadas judicialmente de pessoas e bens)

• ou as pessoas separadas de facto

• ou, ainda, as pessoas que, sendo de sexo diferente, vivam em condições análogas às dos casais, há pelo menos dois anos

A legislação portuguesa prevê a aplicação das seguintes técnicas de PMA:

• Inseminação Intra Uterina - IIU (introdução de espermatozoides diretamente no interior da vagina ou no útero);

• Fertilização in vitro - FIV (técnica através da qual um óvulo é fertilizado em meio laboratorial);

• Injeção intracitoplasmática de espermatozoides - ICSI (procedimento através do qual um único espermatozoide é injetado diretamente no interior do óvulo para possibilitar a fertilização; o embrião é depois transferido para o útero);

• Transferência de embriões, gâmetas ou zigotos - introdução nas Trompas de Falópio de embriões, gâmetas (espermatozoides), ou zigotos (óvulos fertilizados);

• Diagnóstico genético pré-implementação;

• Outras técnicas laboratoriais de manipulação gamética ou embrionária equivalentes ou subsidiárias.

 

3.4.2. Aborto e interrupção da gravidez

Um aborto consiste na interrupção de uma gravidez com menos de 20-22 semanas de gestação.

Aborto espontâneo consiste na interrupção de uma gravidez devido a uma ocorrência acidental ou natural. A maioria dos abortos espontâneos tem origem numa incorreta replicação dos cromossomas e/ou em fatores ambientais. O aborto espontâneo pode ser precoce (se ocorrer até às 12 semanas de gestação) ou tardio (após 12 semanas de gestação).

Aborto induzido é um procedimento usado para interromper uma gravidez, também denominado Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG). Quando realizado precocemente, em serviços de saúde legais e autorizados, é um procedimento médico seguro e com reduzidos riscos para as mulheres.

 

.Quadro legal

Até 1984, o aborto era proibido em Portugal.

A Lei nº 6/84 veio permitir a interrupção voluntária da gravidez em casos de perigo de vida da mulher, perigo de lesão grave e duradoura para a saúde física e psíquica da mulher, em casos de malformação fetal ou quando a gravidez resultou de uma violação.

Em 1997 a legislação foi alterada (lei n.º 90/97), com um alargamento do prazo para interrupção em casos de malformação fetal e em situações de “crime contra a liberdade e autodeterminação sexual da mulher”.

Apenas em 2007, e após um Referendo nacional, foi incluída na lei a possibilidade de se realizarem interrupções de gravidez a pedido das mulheres. Em resumo, com a Lei nº 16/2007, a interrupção da gravidez pode atualmente ser realizada em estabelecimentos de saúde oficiais ou oficialmente reconhecidos desde que:

a) Constitua o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida;

b) Se mostre indicado para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, e seja realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez;

c) Haja seguros motivos para prever que o nascituro venha a sofrer, de forma incurável, de grave doença ou malformação congénita, e for realizada nas primeiras 24 semanas de gravidez, excecionando-se as situações de fetos inviáveis, caso em que a interrupção poderá ser praticada a todo o tempo;

d) A gravidez tenha resultado de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual e a interrupção for realizada nas primeiras 16 semanas de gravidez;

e) Por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas de gravidez.

 

.Etapas no processo de IVG

A  Interrupção Voluntária da Gravidez a pedido da mulher, isto é, ao abrigo da e) da Lei nº 16/2007, pode ser realizada nos Hospitais Públicos, em alguns (poucos) Centros de Saúde do país e em Clínicas Privadas devidamente reconhecidas pelas entidades competentes.

Cada mulher, através da sua área de residência, tem acesso a um Hospital público de referência, onde pode realizar a IVG. Assim, o primeiro passo é saber qual o hospital da sua área. Para obter informações a este respeito ligue para o seu Centro de Saúde, para a Linha Saúde 24 (808 24 24 24) ou a Linha Opções da APF (707 200 249). 

• Passo 1

O processo de IVG inicia-se com a chamada Consulta Prévia.

As consultas de interrupção de gravidez são, por imposição legal, realizadas apenas por profissionais "não objetores de consciência". Se por algum motivo, ao longo do processo, a mulher encontrar um profissional de saúde objetor de consciência (que não concorda com a interrupção de gravidez), este tem a obrigação de informar a mulher e indicar-lhe, de imediato, outros técnicos/serviços aos quais ela possa recorrer.

Para iniciar o processo, a mulher deve telefonar para o Hospital ou Centro de Saúde da sua área de residência e solicitar uma "consulta de interrupção voluntária da gravidez". Alguns Hospitais permitem a marcação direta da consulta prévia, sem necessidade de passar pelo Centro de Saúde; noutros casos, é sugerido que a consulta prévia ocorra no Centro de Saúde.

O período entre a marcação e a realização da consulta prévia não pode exceder 5 dias e a mulher pode estar sozinha ou escolher alguém para a acompanhar na consulta.

É uma consulta de carácter obrigatório, onde o profissional de saúde deve esclarecer todas as dúvidas da mulher e fornecer a informação necessária tendo em vista uma tomada de decisão livre, informada e responsável.

Nesta primeira consulta é determinado o tempo de gestação (através de ecografia) e explicados os diferentes métodos de interrupção da gravidez. A mulher poderá escolher o método que pretende, embora a decisão deva ser tomada em conjunto com o médico, que pode avaliar o método clinicamente mais adequado à situação. A consulta é também um espaço privilegiado para o esclarecimento sobre os métodos contracetivos.

Na consulta prévia é entregue à mulher o impresso Consentimento Livre e Esclarecido que deverá ser lido, assinado e entregue na consulta até à data de realização da IVG. No caso das mulheres menores de 16 anos ou mulheres psiquicamente incapazes, o Consentimento Livre e Esclarecido deverá ser assinado pelo seu representante legal (pai, mãe ou tutor).

As consultas de interrupção de gravidez são, por imposição legal, realizadas apenas por profissionais "não objetores de consciência". Se por algum motivo, ao longo do processo, a mulher encontrar um profissional de saúde objetor de consciência (que não concorda com a interrupção de gravidez), este tem a obrigação de informar a mulher e indicar-lhe, de imediato, outros técnicos/serviços aos quais ela possa recorrer.

No final da consulta prévia é marcada a segunda consulta, para a realização da IVG. 

• Passo 2

Entre a consulta prévia e a data da IVG é obrigatório que decorra um período de reflexão mínimo de 3 dias, durante o qual a mulher pode solicitar apoio psicológico/aconselhamento ou apoio social. Este período poderá ser mais longo se a mulher assim o desejar.

A interrupção da gravidez é realizada, no dia marcado, por um dos métodos previstos: cirúrgico ou medicamentoso.

Só em situações muito particulares é necessário internamento. Na grande maioria das vezes o aborto, quer cirúrgico quer medicamentoso, é realizado em ambulatório, sem necessidade de internamento.

A IVG medicamentosa pressupõe uma consulta para a primeira administração dos fármacos; a segunda administração dos fármacos pode ser feita em casa, pela mulher, ou no serviço de saúde; por fim, deverá haver uma nova consulta cerca de 2 semanas depois, para verificar a IVG.

No caso da IVG cirúrgica, tendo em conta a preparação e os procedimentos pré-cirúrgicos, a permanência no serviço de saúde dura normalmente uma manhã ou uma tarde, embora a intervenção tenha apenas a duração de poucos minutos.

No dia da IVG é marcada a terceira consulta, chamada de controle ou de follow-up.

• Passo 3

Cerca de duas a três semanas após a interrupção da gravidez, deverá realizar-se uma terceira consulta médica de controlo, que é fundamental para se poder confirmar se a IVG foi bem-sucedida.

Dois métodos:

Existem dois métodos para interromper a gravidez: método cirúrgico e método medicamentoso. A mulher poderá escolher o método que pretende, embora a decisão deva ser tomada em conjunto com o médico, que pode avaliar o método clinicamente mais adequado à situação. Ambos os métodos podem ser feitos em regime de ambulatório, ou seja, sem ser necessário internamento.

• Aborto cirúrgico 

O aborto cirúrgico consiste na aspiração do conteúdo uterino, com uma sonda plástica, sob anestesia geral ou local.

Para preparar o colo do útero e tornar mais fácil a intervenção, 3 horas antes do procedimento são administrados 2 comprimidos, por via vaginal ou bucal (isto é, derretidos na bochecha).

A intervenção dura poucos minutos (entre 5 a 20 minutos) e a permanência no serviço demora normalmente uma manhã ou uma tarde.

• Aborto medicamentoso

A interrupção medicamentosa consiste na administração de fármacos, cuja ação interrompe a gravidez. Os fármacos utilizados são o Mifepristone e o Misoprostol.

O Mifepristone é tomado sob a forma de comprimido e atua bloqueando a hormona responsável pela manutenção da gravidez, a progesterona.

O Misoprostol, combinado com o Mifepristone, irá provocar contrações do útero, causando hemorragia e a expulsão do conteúdo uterino.

Protocolo para a IVG medicamentosa:

• 1º dia - Toma do Mifepristone no estabelecimento de saúde: 1 comprimido (200mg) por via oral. A mulher leva para casa os comprimidos de Misoprostol, que deve administrar cerca de 2 dias depois.

• 3º dia (36 ou 48 horas após a toma do Mifepristone) - Toma do Misoprostol, que pode ser feita em casa: 4 comprimidos (800 mcg) por via bucal (derretidos na bochecha) ou por via vaginal. Em alguns hospitais podem ser administrados apenas 2 comprimidos de Misoprostol (400 mcg), também por via bucal (derretidos na bochecha) ou por via vaginal.

Embora haja regimes terapêuticos que preconizem uma dose menor de Misoprostol em gravidezes com menos de 7 semanas de gestação, quase todas as consultas administram já a mesma dose, em qualquer idade gestacional, para aumentar a eficácia do método. Quanto à via de administração, pode variar em cada instituição ou até ser individualizada para cada mulher.

Habitualmente é marcada uma consulta de follow-up para cerca de 2 a 3 semanas após estes procedimentos, para observação da mulher e confirmação da eficácia do método.

 

.FAQ - Perguntas frequentes: 

 

Suspeito que estou grávida. O que devo fazer? 

Quando a mulher suspeita que pode estar grávida deve, em primeiro lugar, confirmar a gravidez com um teste. Se optar por fazer um teste à urina, este pode ser realizado três semanas após a relação de risco ou no primeiro dia após a falta da menstruação. O teste pode ser realizado na farmácia (opção mais económica) ou em casa, caso a mulher o compre na farmácia ou supermercado. Se a mulher optar por fazer um teste sanguíneo, este poderá ser realizado 15 dias após a relação de risco.  

 

Posso escolher o método de IVG? 

De acordo com a legislação em vigor, a mulher pode escolher o método para interromper a gravidez e este pedido deve ser comunicado na Consulta Prévia. 

A decisão sobre o método deve, porém, ser tomada em conjunto com o médico, que avalia o método clinicamente mais adequado à situação.

De salientar que, analisadas as estatísticas anuais publicadas pela DGS, o mais comum no Sistema Nacional de Saúde (isto é, hospitais públicos) é a prática do método medicamentoso e, nos serviços privados legais e reconhecidos, o mais comum é a prática do método cirúrgico.

Tenho 15 anos e estou grávida, posso interromper a gravidez sem os meus pais saberem?

No caso de uma mulher menor de 16 anos querer interromper a gravidez, este processo terá obrigatoriamente que ser do conhecimento do seu representante legal (pai, mãe ou tutor), uma vez que estes terão que assinar o documento “Consentimento Livre e Esclarecido”, entregue na Consulta Prévia.

 

Após uma IVG quanto tempo devo esperar para voltar a ter relações sexuais? 

Depois de uma IVG, a mulher deve ter acompanhamento clínico e será o profissional de saúde a pessoa indicada para lhe dizer quando pode reiniciar a vida sexual. Deve ser considerada uma contraceção adequada ao seu caso, uma vez que a fertilidade pode voltar 10 dias após uma IVG de 1º trimestre. Em qualquer caso, a mulher deve reiniciar a vida sexual quando se sentir preparada para tal.

 

Fiz uma interrupção de gravidez com o método medicamentoso. É normal um sangramento vaginal de 3 semanas? 

Quando ocorre o aborto, a hemorragia dura em média 10 a 14 dias sendo que, em alguns casos, pode durar até 60 dias. A hemorragia maior deve acontecer nos primeiros 3 dias; após isto, a perda de sangue deve tornar-se cada vez menos abundante. Em caso de dúvida, deve recorrer ao serviço de saúde onde está a ser acompanhada.

 

Posso interromper a gravidez num outro hospital que não o da minha área de residência?

De acordo com a lei, a mulher pode interromper a gravidez em qualquer hospital. No entanto, os hospitais têm uma regulamentação própria em que estipulam o atendimento de mulheres da sua área de residência, no sentido de se organizarem e não haver sobrecarga em alguns hospitais. Se desejar interromper a gravidez num serviço fora da sua área de residência, deverá falar com o técnico de saúde de referência do seu Centro de Saúde ou Hospital para poder ser encaminhada.

 

Quais os sinais de alarme pós-aborto? 

A mulher deve recorrer a um serviço de urgência caso se verifique:

• Hemorragia muito abundante (utilização de mais de 2 pensos ultra absorventes por hora, durante 2 horas consecutivas);

• Sensação de desmaio

• Súbita e abundante perda de sangue nas 2 semanas ou mais pós IVG;

• Febre alta e persistente;

• Cólicas abdominais acompanhadas de dores violentas;

• Episódios de diarreia persistentes após as primeiras 24 horas;

• Desconforto emocional muito intenso e prolongado, a ponto de interferir com o quotidiano.

 

Estou grávida, quero interromper a gravidez. O que devo fazer?

A mulher deve dirigir-se ao Centro de Saúde a que pertence ou ao Hospital da sua área e pedir uma consulta de interrupção de gravidez. Se desejar pode recorrer a uma clínica privada reconhecida oficialmente. Seja qual for o estabelecimento escolhido, seguir-se-á a Consulta Prévia.

 

Sou estrangeira, resido em Portugal, e pretendo interromper a gravidez. Quais são os meus direitos?

Os estrangeiros que residem legalmente em Portugal podem utilizar, tal como os portugueses, os serviços de saúde oficiais. 

Para isso, as pessoas que apresentem no Centro de Saúde da sua área de residência a "autorização de permanência ou residência" ou o "visto de trabalho", terão acesso ao "cartão de utente" do Centro de Saúde. No caso dos estrangeiros que descontam para a Segurança Social, o pagamento dos cuidados de saúde têm exatamente os mesmo custos que a lei indica para os portugueses.

Os estrangeiros que não tenham "autorização de permanência ou residência" ou "visto de trabalho" podem ter acesso aos serviços de saúde se apresentarem um documento na Junta de Freguesia da zona onde residem, indicando que residem em Portugal há mais de 90 dias. A estes estrangeiros, poderão ser cobrados os cuidados de saúde prestados, segundo as tabelas em vigor.

Fonte: Circular informativa DGS n.º 14/DSPCS, de 02/04/2002 

 

É necessário internamento para uma IVG? 

Só em situações muito particulares é necessário internamento. Na grande maioria das vezes o aborto, quer cirúrgico quer medicamentoso, é realizado em ambulatório, sem necessidade de internamento.

A IVG medicamentosa pressupõe uma consulta para a primeira administração dos fármacos; a segunda administração dos fármacos pode ser feita em casa, pela mulher, ou no serviço de saúde; por fim, deverá haver uma nova consulta cerca de 2 semanas depois, para verificar a IVG.

No caso da IVG cirúrgica, tendo em conta a preparação e os procedimentos pré-cirúrgicos, a permanência no serviço de saúde dura normalmente uma manhã ou uma tarde, embora a intervenção tenha apenas a duração de poucos minutos.

 

A IVG tem custos para a mulher? 

Não. Em estabelecimentos de saúde públicos oficialmente reconhecidos, o processo de IVG não tem qualquer custo para as mulheres.

 

A mulher pode ficar infértil por interromper uma gravidez? 

Os riscos de ocorrerem complicações, nomeadamente infertilidade, decorrentes de uma IVG são muito reduzidos quando esta é feita em serviços de saúde e com o acompanhamento médico adequado.

 

Posso fazer uma Interrupção Voluntária da Gravidez e continuar a trabalhar? 

Em princípio sim. Mas essa é uma situação que varia de mulher para mulher e vai depender também do método de IVG (cirúrgico ou medicamentoso), da situação física da mulher e da vivência pessoal de todo o processo.

 

Quanto tempo após uma IVG pode uma mulher engravidar novamente? 

A fertilidade pode voltar cerca de 10 dias após uma IVG no 1º trimestre, pelo que a mulher deve ser informada e escolher na consulta prévia o método contracetivo mais adequado. Assim poderá assegurar proteção contracetiva pós-IVG.

 

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