“As pessoas que gaguejam, inspiram-nos”
- Escrito por Paula Fernandes Teixeira
- Publicado em Portugal
A propósito do Dia Internacional da Gaguez que se assinala amanhã, terça-feira, dia 22 de outubro, a Associação Portuguesa de Gagos (APG) através da sua página oficial fala do lema deste ano: “As pessoas que gaguejam, inspiram-nos”.
“Porquê comemorar, a nível mundial, um dia de reflexão acerca de uma dificuldade que afeta tantas pessoas?” – é a reflexão proposta pela APG que, através do terapeuta da fala do Centro Hospitalar de Coimbra e professor na Escola Superior de Tecnologia de Saúde do Porto, Brito Largo, responde a uma série de perguntas sobre este tema.
“O lema de reflexão para este ano: ‘As pessoas que gaguejam, inspiram-nos!’, deixa subjacente uma possibilidade evidente de se poder olhar para esta dificuldade de forma alternativa. Sendo assim, talvez valha a pena começar por se fazer a pergunta mais óbvia: ‘O que é a gaguez?’. Muito se tem estudado, refletido e analisado para se poder responder a esta questão. Afinal, parece que a resposta não é assim tão óbvia. Num sentido mais genérico, é fácil considerar que a gaguez resulta de um conjunto de pausas, hesitações e bloqueios em sons, sílabas e palavras que afectam de algum modo a fluência do discurso de alguém, impedindo-o por isso de falar com eficácia”, refere Brito Largo em nota publicada na página da APG.
O terapeuta da fala alerta que esta “definição” é “enferma”, pois “à partida”, fala “de uma limitação pois não considera a grande variabilidade individual na forma como se manifestam estas dificuldades, sendo o desafio atual a este nível considerar se temos gaguez ou gaguezes!”.
“Por outro lado, exclui-se nesta visão a pessoa que gagueja. Compreender melhor este fenómeno poderá implicar um alargamento do foco de estudo e análise, considerando-a. Transita-se assim de um nível de análise da gaguez como facto, para a dimensão da construção que o sujeito que gagueja faz relativamente à sua dificuldade, e como lida com as emoções que este fenómeno lhe provoca. A pessoa que gagueja sofre emocionalmente por se sentir diferente dos outros e para além de gaguejar, vive em confronto permanente com uma visão idealizada de si próprio, na convicção de que não poderá viver nunca a vida que deveria viver se não gaguejasse. O mais impressionante desta concepção é a sensação que se tem da solidão do indivíduo confrontado com os seus limites, sendo este o primeiro e único responsável por tudo o que à gaguez diz respeito. Ainda assim, considerando esta possibilidade de construção e análise, é fantástico verificar que existem pessoas que embora gaguejem são felizes, desempenhando com sucesso as mesmas funções que outros, ditos não gagos, sendo cantores, actores, músicos, políticos, escritores, cientistas, pais, mães,…”, continua a explicação do especialista.
Brito Largo refletiu, ainda, sobre a inspiração que as pessoas que vivem com gaguez podem causar, abordando aspetos de comunicação.
“Num qualquer episódio comunicativo, encontram-se pelo menos duas pessoas a procurarem influenciar-se mutuamente, num determinado contexto, para atingirem uma finalidade comum, que é verem supridas as suas necessidades individuais. Se uma delas gaguejar, o outro pode não saber como lidar com a situação e todo o processo comunicativo é afetado. Esta visão mais contemporânea acaba por colocar a tónica numa visão do fenómeno gaguez não como algo da responsabilidade individual, mas principalmente como um fenómeno que afeta a interacção comunicativa entre pelo menos duas pessoas. Esta afetação mútua implica responsabilidades partilhadas no confronto com a gaguez e também compromisso dos dois para lhe atenuar os efeitos”, referiu o especialista.
Dados da APG dizem que a gaguez afeta cerca de 100 mil portugueses. E é contra o “sofrimento” que a gaguez causa que esta associação luta.