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Erasmus+: um programa inclusivo

Cláudia Pires é uma portuguesa em Bruxelas a “testar” o que tanto se almeja em Portugal: é assistente pessoal de Rebecca Farren que saiu de Newcastle, a terra natal, para, ao abrigo do programa Erasmus+, trabalhar na capital Belga e desfrutar do que se pode considerar uma vida realmente independente.


Cláudia Pires, a requerida


Acorda dois minutos antes de começar a trabalhar. Esperam-lhe três quartos de hora de apoio a uma pessoa com paralisia cerebral que precisa de ajuda para vestir o casaco, calçar as sapatilhas e preparar o pequeno-almoço antes de seguir para o trabalho.

De manhã, Cláudia Pires trabalha dois dias por semana: às segundas e às terças das 7h30 às 8h15. É responsável por fazer o jantar das 17h às 19h às segundas, terças, quartas e quintas e, além disso, faz as compras, a lavandaria e limpa a casa. Ao fim de semana trabalha aos domingos: “Tenho que fazer de manhã o pequeno-almoço e o almoço e folgo à sexta e ao sábado”, completa. São quatro horas de trabalho diárias que parecem complicadas de gerir, mas a rotina já está instalada e inclui outra assistente pessoal responsável por completar este apoio.

Cláudia Pires tem 27 anos, é natural de Guimarães e entrou nesta aventura de se candidatar para assistente pessoal em janeiro deste ano. “Era a primeira vez que ia fazer um trabalho destes e logicamente que considerei todas as coisas que podiam correr mal. Mas todos os problemas que me passaram pela cabeça estavam, principalmente, relacionados com a minha personalidade e a minha capacidade ou possível falta de adaptação à situação”. A candidata a assistente pessoal tinha receio de se tornar “inconscientemente intrusiva” por querer ajudar e decidiu que “teria de controlar esta ansia de facilitar” e optar por “questionar o que realmente a Rebecca queria”.

Existia um requisito que poderia complicar esta tarefa: teriam que morar juntas. “Com o tempo entendi que é tudo uma questão de falar abertamente sobre tudo o que necessite de ajuste ou adaptação e isso torna-se fácil porque a Rebecca é totalmente relaxada e flexível com a situação o que facilita imenso a nossa relação. Já criamos a nossa dinâmica, adaptamo-nos uma à outra e tem sido uma ótima experiência”, constata. 

Começou por calçar as sapatilhas, sentia que só assim ficava em “modo trabalho”, mas agora, que sabe rigorosamente o que tem de fazer, já desistiu dessa estratégia. “É difícil manter a separação da relação pessoal da profissional. Especialmente sendo colegas de casa”, assume.

Não nega que às vezes é difícil não perder a postura porque partilham muito uma com a outra. “Gosto do trabalho que faço. A Rebecca é boa pessoa e, profissionalmente, não podia ser melhor. Para já tem sido tudo tranquilo como considero que seja até ao fim desta experiência”.

Uma experiência que começou em Newcastle onde conheceu a Rebecca no escritório da OpportUNITY, a entidade que acolheu Cláudia Pires durante um ano de voluntariado ao abrigo do programa Erasmus+. “A Rebecca foi reunir para acertar pormenores sobre o EVS [Serviço de Voluntariado Europeu]. Posteriormente o coordenador da OpportUNITY informou-me que havia a posição e sugeriu que me candidatasse. Após duas conversas com a Rebecca entendi que era uma boa possibilidade assim como ela quando aceitou”, lembra.
A mudança de Inglaterra para a Bélgica não foi fácil porque Cláudia Pires tinha criado “uma ligação muito especial com Newcastle”. Embora tenha assumido desde o início que “é sempre interessante explorar algo novo”, confessa que “aquela saudade”, a palavra tão portuguesa que melhor define o que sentia, foi, no início, o sentimento que predominou. “O grande problema foi o isolamento social inicial que tive. O meu trabalho com a Rebecca é, maioritariamente, em casa. O meu prédio é habitado por idosos, é um condomínio específico para pessoas idosas, que se reúnem na sala comum, mas o obstáculo da língua impede-me de interagir mais com eles. Foi um bocado difícil arranjar uma vida social mas depois de explorar mais a cidade e dado o cenário multicultural de Bruxelas facilmente criei novas amizades”, conta.

A adaptação só foi rápida em relação à meteorologia - “nublado e chuva na maior parte do tempo” – a mesma que a acompanhou durante o ano anterior em que esteve em Inglaterra. Rendeu-se à simpatia das pessoas, à cidade cheia de áreas verdes, com uma arquitetura interessante e com uma rede de transporte fácil de utilizar. Mesmo a barreira linguística não foi um problema. “Eu e a Rebecca sempre nos desenrascamos bem”. Mesmo em relação às barreiras arquitetónicas que, apesar de ser a capital da União Europeia, Bruxelas apresenta, existe “um problema enorme de acessos físicos: edifícios de serviços públicos, restaurantes, cafés, cinemas, museus”.

“Que desilusão. Por exemplo, sobre os transportes públicos, os autocarros com elevador para cadeira de rodas ou as estações com rampa são raros, o metro requer a requisição de apoio com rampa móvel uma hora antes da viagem porque não existe outra alternativa (grande desnível entre plataforma e carruagem), entre outros pormenores. Cada vez que saímos é preciso planear cuidadosamente os sítios a visitar para verificar acessos, casas de banho acessíveis, etc.”, exemplifica Cláudia Pires. A compensar, apenas a disponibilidade das pessoas para arranjarem soluções “para a Rebecca realizar de uma forma confortável o seu dia-a-dia”. “Sei que as coisas não deviam ser assim - o ambiente deve estar adaptado para ser acessível a todos - mas é sempre bom ver nas pessoas este respeito”, considera a assistente pessoal.

Depois de uma passagem por Viena de Áustria de participar no festival de música Cabaret Vert em Charleville-Mézières, França, passear pela Holanda e conhecer a capital alemã, Cláudia Pires regressa ao trabalho até 31 de outubro - a data que marca a vinda definitiva a Portugal.

 

Rebecca Farren, a requerente


“Estava super nervosa, mas só pensava na oportunidade, na ENIL [European Network on Independent Living], só pensava em poder fazer o meu primeiro ‘trabalho’ numa organização para pessoas com deficiência”, lembra Rebecca Farren em relação ao momento em que se candidatou ao voluntariado do Erasmus +. Esperavam-na 10 meses de trabalho numa entidade que funciona como uma rede de pessoas com deficiência com membros espalhados por toda a Europa, sedeada em Bruxelas e que tem como missão principal a promoção da filosofia de vida independente. A inglesa não podia perder a oportunidade de trabalhar e, ao mesmo tempo, viver, uma vida independência. 
Naquela que considera ser a experiência mais difícil da sua vida, Rebecca Farren teve oportunidade de ir à manifestação sobre o Ato Europeu de Acessibilidade, organizar e participar também an Freedom Drive, mas é também responsável por apoiar o trabalho administrativo da ENIL e da verificação do inglês da comunicação que a entidade faz. “Eu realmente gosto mas não é ativismo no verdadeiro sentido. Eu espero que com aquilo que estou a fazer, realmente, ajude de um modo indireto”, refere.

Rebecca Farren também regressa a Newcastle no final deste mês. Aos 24 anos, depois de 10 meses de voluntariado ao abrigo do programa Erasmus + na ENIL, a socióloga volta a Inglaterra para procurar trabalho e uma assistente pessoal. “Os meus pais vão ter que me ajudar e, por isso, vou ter menos independência”, assume a jovem com paralisia cerebral e que utiliza uma cadeira de rodas no dia-a-dia.

Na universidade teve direito a apoio para as necessidades mais básicas e agora que experimentou o “sabor” da independência, não consegue abrir mão da assistência pessoal que no Reino Unido vai ter que pagar do próprio bolso. As duas assistentes pessoais que a apoiam agora em Bruxelas são contratadas pela própria ENIL que recebe financiamento do Erasmus + para pagar-lhes os ordenados. No entanto, a seleção das candidatas foi a Rebecca quem a fez e teve como ponto de partida sete candidaturas, mas três foram rapidamente postas de parte. O que a cativou na entrevista a Cláudia Pires foi a resposta à pergunta: “Porque te candidataste a este trabalho? “Os outros candidatos eram do género “Eu quero ajudar pessoas" e a Cláudia disse "Eu quero ajudar-te a disfrutar o máximo desta experiência de EVS", lembra Rebecca Farren. “Eu estava, realmente, impressionada com o conhecimento que a Cláudia tinha sobre deficiência e sobre o programa Erasmus”, acrescenta.


Erasmus +, o motivo da requisição


O programa Erasmus+ é o programa da União Europeia para a Educação, Formação, Juventude e Desporto que transformou a vida de Cláudia Pires, a de Rebecca Farren e, desde 2014, tem vindo a transformar a vida de muitas outras pessoas que aproveitam esta oportunidade em termos de mobilidade para fins de aprendizagem, estágio ou formação.
A relação com a Plural&Singular e o Núcleo de Inclusão, Comunicação e Media ao qual a revista pertence, o ser assistente pessoal e a ligação com o programa Erasmus+, é um “triângulo perfeito” para Cláudia Pires e uma motivação para a jovem arregaçar as mangas e tentar replicar o que aprendeu a partir de casa: Guimarães, Portugal.

“Esta oportunidade de ser assistente pessoal de uma rapariga com deficiência durante o EVS parece uma brincadeira do Universo. Um timing perfeito. Esta experiência criou a ponte entre o que aprendi no EVS e o trabalho que quero desenvolver com o Núcleo de Inclusão”, confirma a assistente pessoal. Este trabalho deu-lhe a possibilidade de acompanhar de perto a participação de uma pessoa com deficiência no EVS. “Todos os desafios, condições e requerimentos necessários para garantir uma experiência positiva. Depois disto ganho muita mais motivação de explorar o programa e para pôr em prática as ideias de projetos que o Núcleo tem”, completa.

O envolvimento do Núcleo de Inclusão, Comunicação e Media no programa Erasmus irá inicialmente incidir em duas ações - Intercâmbios de Jovens e Formação e criação de redes de animadores de juventude - passando inicialmente por enviar participantes portugueses para estas ações desenvolvidas pelos parceiros criados em diferentes países e evoluindo posteriormente para o desenvolvimento destes projetos em Portugal. “A minha perspetiva realista sobre estes assuntos faz-me explorar esta questão de uma forma cautelosa, traçando assim uma estratégia que se foca na qualidade e não quantidade. A nossa ideia será explorar a parte do programa Erasmus+ que vá de encontro caos objetivos da Palavras Infinitas e criar uma rede de parcerias internacional que desenvolva e suporte o tema central dos nossos projetos: a Inclusão”, explica Cláudia Pires.

No ano que esteve em Newcastle, a portuguesa envolveu-se em vários projetos internacionais e como tal teve a oportunidade de conhecer muitas pessoas associadas a organizações de diferentes países da União Europeia e países vizinhos já com atuação no âmbito do programa Erasmus+. “Em fevereiro deste ano avançamos como parceiros da OpportUNITY para duas ações de formação que foram aprovadas e estamos na fase de seleção de participantes”, contextualiza. Dos 22 candidatos inscritos, foram selecionados três portugueses para frequentar o curso de formação “EVS BIGGER, BETTER, BRIGHTER”, que se realiza de 6 a 14 de outubro, em Newcastle dentro da Acção 1. Mobilidade para Jovens e Animadores de Juventude do programa Erasmus +. Está neste momento a decorrer.

Foram submetidas duas candidaturas a ações de formação no início de outubro, e, além disso, continua-se a estabelecer mais parcerias, passos importantes a dar neste novo caminho que o Núcleo de Inclusão, Comunicação e Media inicia no âmbito do programa Erasmus + com o objetivo principal de conseguir criar condições para proporcionar esta experiência a pessoas como a Cláudia Pires e Rebecca Farren.

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